• Fernanda Cristina Dias

Eu frágil e vida corporativa


Há exato um ano, quando ocupava uma posição gerencial de liderança em uma consultoria de varejo, escrevi um artigo sobre os pensamentos estratégico e tático e a dificuldade de enquadramento destes dois na realidade vivida nas empresas atualmente.

Hoje, em um papel diferente, observo meu discurso anterior impregnado pela visão corporativa e me proponho a usar de maneira breve e talvez mais superficial do que gostaria, a Sociologia e a Psicanálise, para analisar os mesmos dilemas, mas agora com foco na subjetividade daqueles que se deparam continuamente com as questões do ambiente corporativo.

Menciono estar sendo talvez mais superficial do que gostaria porque não pretendo me aprofundar em todos os conceitos que possam emergir nesta discussão simplesmente por entender que talvez este fórum não seja o mais adequado para isso.

Assim, proponho-me a analisar as questões de identidade que permeiam o dilema do pensamento estratégico, ou do que se espera em termos de padrões de pensamento dentro das organizações, e a prisão psíquica que pode causar aos indivíduos que passam a absorver os ditames organizacionais como a única possibilidade de identidade.

Não cuspo no prato que comi. Apenas apresento a ideia de que todos podem escolher em que prato quer comer ou no mínimo ter consciência das características do prato que escolheu para nutrir-se – de sentido, de vida. Desta forma, resgato alguns trechos do citado artigo (Dias, 2013, p.1):

“Uma das habilidades buscadas em um gestor é sua capacidade de pensar estrategicamente. De maneira geral, implica em um planejamento bem executado considerando oportunidades e ameaças para a execução de um plano de negócios. ‘Pensar estrategicamente’ é uma habilidade muito difundida atualmente e costumeiramente adicionada aos discursos corporativos. No entanto, algumas vezes observamos que de maneira equivocada existe a aplicação incorreta do termo, seja pelo uso inadequado ou pela simples dificuldade de execução.”

Neste trecho ressalto a importância de pensar estrategicamente e o quanto o não enquadramento a este pensamento gera inadequação ao sujeito, sob o ponto de vista corporativo. No entanto, usando agora minha função de psicanalista para analisar o sujeito inadequado, penso que é possível que ele esteja sendo pressionado a ‘ser’ algo, o que é uma função muito além de ‘saber fazer’ uma atividade específica. Parece, portanto, que por trás desta inadequação existe uma questão existencial latente que se não for observada com cautela pode tornar gradativamente turva a percepção do sujeito sobre ele mesmo. Sobre este assunto, cito a socióloga Lúcia Bruno (1997, p.34-35) que discorre sobre este tema em um artigo:

“Qualquer trabalhador que desempenhe funções estratégicas, independente do seu nível de qualificação, tem de apresentar certas habilidades sociais e psíquicas, tais como capacidade de aprender continuamente, de ser criativo e ter iniciativa, de se comunicar e se relacionar no ambiente de trabalho, de assimilar normas comportamentais e valores estabelecidos pela alta gestão das organizações. Enfim, além de saber fazer, é preciso saber ser.”

Sobre a capacidade de saber ser para atender uma exigência do mercado, é importante refletir no que estamos nos transformando. Seríamos seres sem autenticidade, coisificados e imbuídos a alimentar cada vez mais nosso narcisismo frágil que nos move a parecer ser aquilo que esperam de nós?

Richard Sennet (1943/ 2001), em A corrosão do caráter, coloca em xeque a maneira moderna de gerir as organizações que, contrariamente aos sistemas arcaicos de linha de montagem, trazem um discurso pretensiosamente mais humano, carregado de flexibilizações de funções, home-office, benefícios inovadores etc. para atribuir, segundo o autor, uma melhoria meramente ilusória. Sennet ressalta a crise e aniquilamento do caráter, que em meio às flexibilizações aparentes, cerceiam experiências e dificultam a construção de uma narrativa coerente para a vida das pessoas, ou seja, a existência é moldada segundo a narrativa do outro e o sujeito não pode vivenciar e criar sua própria existência.

Do ponto de vista sociológico, é importante notar que o sujeito tem costumeiramente se deparado com questões relacionadas à sua identidade, oriundas das confusões trazidas pelo ‘saber ser’ a qual a função ocupada em determinada empresa constitui sua identidade única, identidade-funcional, identidade-papel, identidade status (Cassorla, 1997, p.39).

É importante verificar também a facilidade com que ‘compramos’ ideias e aderimos a discursos prontos, nos permitindo a possibilidade de sermos convencidos a seguir um determinado caminho por meio de imitação a alguns padrões, conforme menciona Roosevelt Cassorla (1997, p.41):

“Nós, psicanalistas, diríamos que os seres humanos preferem identificações imitativas, adesivas e projetivas, narcísicas e superficiais a identificações introjetivas, que transformam e enriquecem o mundo interno. Diríamos também que existe uma resistência imensa à mudança e que toda mudança é catastrófica. Por isso, tenta-se evitá-la ou neutralizá-la, não se permitindo ser benéfica”.

Este é um tema que muito me interessa e é o cerne da minha identidade-função psicóloga: promover a possibilidade de reflexão e mudança no sujeito que busca por Psicanálise: resgatar sua narrativa, criar outras possibilidades em confrontação com as imitadas e impostas, separar o joio do trigo. Não de um modo romântico e idealizado, mas sim heróico. Isto porque conseguir se propor a uma mudança e encarar uma sessão de Psicanálise tem sido cada vez mais difícil para as pessoas. Não raro, minha experiência tem mostrado que está muito difícil encontrar sujeitos que passem da primeira sessão, que consigam dar o primeiro passo, que priorizem a reflexão.

Infelizmente atividades que buscam reflexão estão sendo cada vez mais evitadas e substituídas por programações mentais - as terapias ou teorias neuro/cognitivo-alguma coisa, pela crescente medicalização de sentimentos e pela mercantilização das subjetividades.

Resta saber de que lado você está, do seu ou do Outro?

Referências bibliográficas

  • Bruno, Lúcia; Cassorla, Roosevelt e Rossi, Cláudio (1997). Identidade, Trabalho e Desemprego. Revista Ide. São Paulo: Sociedade Brasileira de Psicanálise.

  • Dias, Fernanda C. (2013). Uma maneira tática de pensar estrategicamente. Mercado e Consumo. São Paulo: Gouvêa de Souza & MD.

  • Senett, Richard (2001). A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo (5ª edição). Rio de Janeiro: Editora Record. (Trabalho originalmente publicado em 1943).

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