• Fernanda Cristina Dias

Estou com síndrome do pânico. E agora? Saiba como a Psicanálise poderá ajudá-lo


Atualmente, a nosologia psiquiátrica tem preferido o termo transtorno para caracterizar um conjunto de sintomas ou distúrbios patológicos. Os ataques de pânico, segundo o DSM-IV[1], são descritos como sendo “episódios súbitos, de aparecimento diurno ou noturno, caracterizados por uma descarga neurovegetativa, sensação de morte iminente, ansiedade e eventualmente inquietação psicomotora, cuja duração não ultrapassa 15-30 min”. A ocorrência de mais de um ataque pode caracterizar um transtorno de pânico, dependendo da recorrência, intensidade e outros sintomas associados, segundo a visão da psiquiatria.

Porém, a psicanálise entende a síndrome ou transtorno de pânico não como uma doença, mas como a manifestação de um sintoma, ou seja, como uma expressão de ansiedade e medo intensos causada pela sensação de que está se perdendo o controle – da respiração, dos movimentos, da vida - e nos comunica que algo não está bem. Este algo que não está bem pode vir simbolizado por diversas situações. Um sujeito, por exemplo, pode ter um ataque de pânico toda vez que entra em um avião. Mas, será que é o avião em si que provoca este sintoma? O tratamento mais adequado seria em torno do avião? Existem alguns caminhos para a tratativa desta questão e a psicanálise tem sua contribuição particular a este assunto.

Desde Freud, apesar de ainda não ser este um mal-estar tão presente em sua época, já se falava em neurose de angústia que é uma das vertentes para formulações posteriores a respeito do que psicanalistas pós-freudianos desenvolveram em torno do assunto. Nas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (Parte III), quando tratava do tema ansiedade, Freud descreveu: “[...] encontramos uma apreensão generalizada, uma espécie de ansiedade livremente flutuante, que está pronta para se ligar a alguma idéia que seja de algum modo apropriada a esse fim, que influencia o julgamento, seleciona aquilo que é de se esperar, e está aguardando qualquer oportunidade que lhe permita justificar-se. A esse estado denominamos ‘ansiedade expectante’ ou ‘expectativa ansiosa’. [...] Uma desmesurada quantidade de ansiedade, porém, compõe um aspecto constante de um distúrbio nervoso ao qual dei o nome de ‘neurose de angústia’ e que incluo entre as neuroses ‘atuais’”.[2]

A Psicanálise se preocupa com a singularidade dos sujeitos, não se limitando a uma descrição fenomenológica sobre os sintomas a respeito do mal-estar que os acomete em dada situação; não fazemos um checklist de sintomas para que, caso você se encaixe neles, saia com a etiqueta de “portador de síndrome do pânico”, mas sim, tentamos entender com você qual a condição que o coloca neste estado tão angustiante. Medo, ansiedade, dor de barriga, dor de dente todos nós sentimos, mas cada um de uma forma distinta. O que há em comum entre todos nós é a cultura, ou melhor dizendo, a sociedade em que vivemos e a forma como este coletivo de sujeitos nos afeta. O pânico, portanto, é uma manifestação contemporânea para as questões existenciais que se apresentam agora, em nosso tempo atual, e é vivido por cada um de nós de acordo com nossa história de vida, com nuances que se moldam à expressão particular de cada sujeito.

O mais importante é você poder desvendar o que o seu pânico tem a dizer a seu respeito e dar um significado a ele. Senão, você apenas evitará aviões o resto da sua vida e deixará de percorrer distâncias que o levariam a experiências talvez inesquecíveis; ou quem sabe buscará um alívio imediato com um calmante no momento da decolagem ou mesmo aprendendo comportamentos e esquemas mentais que o fazem “esquecer” deste medo, associando a ação de andar de avião a situações mais prazerosas. Esta eu diria que seria uma medida isolada, emergencial e paliativa.

No entanto, um conjunto de medidas consecutivas desta ordem pode ser extremamente tóxico em longo prazo. Isto porque nosso psiquismo é sorrateiro. Logo ele encontra outro símbolo para associar àquele pânico que você tinha quando entrava no avião. Agora, de repente, de maneira inesperada, toda vez que alguém que não conhece esbarra em você na rua os ataques recomeçam. Este é apenas um exemplo fictício (porém baseado na experiência que tenho atendendo pacientes que apresentam estes sintomas) para você entender que o inconsciente é um sistema vivo e dinâmico e precisa encontrar vias naturais de comunicação com o consciente quando algo traumático ocorreu e está obstruindo o funcionamento do mundo psíquico. Não adianta eliminar o símbolo[3] (o avião, as pessoas que esbarram em você) – tratar apenas do consciente – porque o inconsciente logo se encarrega de encontrar outro símbolo.

A psicanálise, portanto, é uma técnica de limpeza de chaminés, conforme analogia utilizada por uma das pacientes mais importantes de Freud, Anna O. que, ao submeter-se à técnica psicanalítica, sentiu que o conteúdo que estava reprimido (bloqueado) em seu inconsciente e que causava intenso sofrimento psíquico, inclusive com a manifestação de sintomas físicos, foi aos poucos dissipado permitindo que esta obstrução tóxica pudesse ser limpa. É como uma chaminé que, quando muito obstruída promove o acúmulo de resíduos tóxicos. Limpá-la é garantir que a fumaça possa ecoar e evitam-se danos, ainda que às vezes este processo seja difícil e doloroso. Afinal, não foi à toa que seu consciente resolveu reprimir algo do inconsciente.

Gostaria de encerrar lançando uma reflexão: Você já parou para pensar que além de aviões não controlamos realmente nada? O seu pânico, se tratado apenas com medidas isoladas, emergenciais e paliativas vai levá-lo para onde então? Eu diria que no extremo poderá levá-lo a uma impossibilidade de estar vivo já que a vida é um conjunto de acasos. Estar constantemente sob o controle de remédios e esquemas mentais (que o fazem acreditar que o pânico irá passar) gera dependência a um sistema falsificado, fabricado (porque não foi produzido por você) reforçando um sentimento de futilidade e falta de sentido à vida. Quanto mais você tentar controlar os sintomas que lhe acometem utilizando-se apenas de recursos externos (que vêm de fora para dentro, como por exemplo, substâncias e/ou técnicas estritamente cognitivo-comportamentais) menos permitirá que suas forças internas possam surgir e dar vazão àquilo que lhe faz ser único e vivo. Viver pode ser muito mais do que sobreviver e perdurar vazio a cada nova questão que se coloca.

Fique à vontade para agendar uma sessão de Psicanálise. Não cobro a primeira entrevista.

[1] A sigla DSM significa Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders e é traduzida no Brasil para Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

[2] Freud, S. (1917[1916-17]). Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. In: Freud, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (versão eletrônica). v 16. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 1- 147.

[3] Em psicanálise chamaríamos este símbolo de representação.

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